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Protestos da oposição mostram que Bolsonaro não domina mais as ruas, dizem pesquisadores

Protestos da oposição mostram que Bolsonaro não domina mais as ruas, dizem pesquisadores

Protestos da oposição mostram que Bolsonaro não domina mais as ruas, dizem pesquisadores

As manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), pela democracia e contra o fascismo e o racismo que ocorreram neste domingo (7/6) mostraram que o presidente “não é dono das ruas”, avaliam especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Grupos que apoiam o governo vêm fazendo desde março manifestações com pedidos pelo fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. O presidente costuma aparecer nos atos, sem repudiar suas mensagens antidemocráticas. Neste domingo, parte da oposição foi às ruas, apesar de a preocupação com o contágio do coronavírus e possíveis conflitos violentos terem dividido esses grupos contrários ao governo. Atos aconteceram em diversas cidades, sendo os maiores em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

Alguns opositores do governo argumentavam que confrontos entre manifestantes a favor e contra Bolsonaro poderiam ser usados como motivo para reações autoritárias da parte do governo. No entanto, os atos acontecerem sem grandes conflitos.

Para analistas ouvidos pela reportagem, os atos mostraram que, “se houver embate, vai haver gente na rua defendendo a democracia”, nas palavras de Luciana Gross, professora da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.

“O ato foi tímido, seria maior se não fosse a pandemia”, avalia Christian Lynch, professor de pensamento político brasileiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Surgiram nos últimos dias iniciativas suprapartidárias em defesa da democracia e contra Bolsonaro, como o movimento “Somos70porcento”.

No entanto, isso não significa, segundo eles, que essa oposição esteja coesa. Há uma série de divergências profundas entre os grupos contrários ao governo.

Convocados por movimentos de periferia, ativistas negros, integrantes de torcidas organizadas, estudantes secundaristas, grupos antifascistas e a frente Povo Sem Medo, os atos tiveram duas bandeiras principais: o antifascismo e o antirracismo, com o mote “Vidas Negras Importam”, em reação ao assassinato de pessoas negras pela polícia nas periferias brasileiras.

Valter Silvério, professor do departamento de sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e especialista em relações raciais, diz que há uma extensa tradição de lutas do movimento negro que, devido a conjunturas específicas, ganham visibilidade, e é o que acontece neste momento. “As pessoas acham que é novidade, mas não é”, resume.

O que ele vê como novidade é a emergência de grupos jovens que se articulam e que podem ter novo papel de liderança.

‘Bolsonaro não é dono das ruas’

Para Christian Lynch, da Uerj, Bolsonaro tenta criar a ilusão de que tem “o povo” do seu lado incentivando manifestações a seu favor e usando redes sociais. No entanto, isso vem caindo por terra, opina ele.

“Bolsonaro é um populista de ultradireita. Uma das pedras de toque é vender ilusão de que existe povo verdadeiro contra povo falso. Isso é comum tanto na extrema direita quanto na extrema esquerda. (Ele tenta passar a imagem de que) povo é quem está do lado dele. O resto, a oposição, não é povo. Mas o fato é que cada vez menos gente é arrebanhado pelo governo. A pandemia radicalizou seu grupo, mas unificou o outro lado. E daqui para frente ele vai perder a rua”, projeta Lynch.

Isso acontece agora devido às ameaças à democracia e às instituições que o governo vem fazendo, avalia.

Além dos Somos70%, há o movimento Estamos Juntos, lançado no sábado (30) e o Basta!, lançado por advogados e juristas no domingo (31).

Luciana Gross, da FGV, avalia que os protestos foram parte de um esboço de uma reação da oposição. Nos últimos dias, diz ela, “foi possível ver o começo de uma movimentação de vários grupos diferentes entre si, mas que estão chegando no limite de tanto que o presidente ameaça a democracia e as instituições”.(BBC News Brasil)

FOTO PÚBLICAS/RICARDO STUCKERT

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