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Pesquisa mostra que treino faz cérebro desenvolver estratégias para amenizar doenças no futuro

Pesquisa mostra que treino faz cérebro desenvolver estratégias para amenizar doenças no futuro

Pesquisa mostra que treino faz cérebro desenvolver estratégias para amenizar doenças no futuro

O cérebro pode ser treinado para mudar conexões
Por Paula Guatimosim, FAPERJ

Há muito tempo a ciência estuda as capacidades cerebrais a fim de desenvolver novas terapias que auxiliem, especialmente, na cura de doenças neurológicas. Nossos movimentos, pensamentos, capacidade de aprendizagem, enfim, todas as ações voluntárias e involuntárias do nosso corpo são regidas por comandos cerebrais.

A novidade, recém-revelada por pesquisadores brasileiros, é que o cérebro pode ser treinado para mudar conexões em menos de uma hora. O próximo passo do estudo é verificar se o treinamento denominado “neurofeedback” será capaz de amenizar doenças, recuperando conexões e funções prejudicadas, como no Acidente Vascular Cerebral (AVC).

O trabalho de doutorado do neurocientista Theo Marins, que foi orientado em sua pesquisa por Fernanda Tovar-Moll, presidente do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), e por Jorge Moll, presidente do conselho do Idor, foi publicado na revista científica especializada Neuroimage e pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas terapêuticas. Segundo Marins, até 2012 as pesquisas mostravam que o cérebro era capaz de mudar conexões cerebrais em um dia, após horas de treinamento. De lá para cá, com a ajuda da Ressonância Magnética Funcional e o neurofeedback, observou-se que as mudanças poderiam ser monitoradas em tempo real. E o mais importante do trabalho nessa primeira fase, realizada com pessoas saudáveis, é que as redes neurais se modificam em pouco mais de 30 minutos. Ou seja, com a utilização da técnica de neurofeedback é possível modificar as conexões neuronais em tempo recorde, funcionando como um treinamento cerebral que fortalece seu funcionamento.

Fernanda Tovar-Moll explica que o treinamento do cérebro é possível devido a sua neuroplasticidade, ou seja, sua capacidade real de se adaptar, de reagir a mudanças e se reorganizar a partir de estímulos ou até patologias. Ela explica que essas mudanças na forma de funcionamento e das conexões entre diferentes áreas são as bases do aprendizado e da memória, por exemplo. Para ilustrar a neuroplasticidade, a pesquisadora comenta um exemplo de plasticidade maladaptativa, como da amputação de um membro, situação em que o cérebro se reorganiza e se adapta à nova condição, mas desencadeia sintomas em que o paciente ainda tem a sensação de sentir o membro amputado, muitas vezes com dor.

Segundo Fernanda, seu grupo vem estudando a neuroplasticidade em vários níveis, inclusive nos problemas neurológicos em crianças, cujo cérebro, ainda imaturo, tem capacidade bem maior de reorganização. Entretanto, acrescenta, existem várias evidências de plasticidade e de que é possível treinar o cérebro de adultos. Os resultados são bem animadores, inclusive na melhoria das funções de pacientes que sofreram AVC, que contam com protocolo similar ao utilizado no estudo. O desafio é documentar tais alterações e entender mais sobre a plasticidade cerebral. Tais descobertas podem ajudar a guiar terapêuticas mais eficazes no futuro. “O objetivo do nosso estudo vai além de testar a ferramenta de neurofeedback. Utilizamos esta estratégia com neuroimagem por ressonância magnética para induzir e documentar plasticidade em tempo real, para entender as alterações na estrutura e função do cérebro com este processo”, diz a radiologista e neurocientista, que tem apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas, tendo sido comtemplada no programa Cientista do Nosso Estado.

As imagens foram comparadas antes e depois do treinamento e permitiram medir a conectividade funcional e a estrutural das áreas cerebrais. Marins explica que as modificações da conectividade funcional (comunicação entre as áreas cerebrais) não são uma novidade no meio acadêmico, mas a maior estruturação de conexões cerebrais (fios condutores) observadas em tão pouco tempo é a maior contribuição deste estudo. “Vimos que o cérebro que viveu a situação real fortaleceu a rede motora e o corpo caloso (região do cérebro que conecta os hemisférios direito e esquerdo). Uma reação muito rápida e importante como mecanismo de treinamento”, relata o pesquisador. Isso porque as áreas do cérebro responsáveis pelos movimentos, explica ele, responderam de maneira semelhante, estando o corpo em ação ou em repouso.

“Não sei se outro tipo de treinamento proporcionaria a mesma resposta do neurofeedback, mas acredito que outros treinamentos possam levar aos mesmos resultados”, pondera Marins. Para ele, o Brasil está apresentando ao mundo uma ferramenta potente, mas ainda é preciso entender quais os comandos são necessários para o cérebro reverter as modificações cerebrais específicas decorrentes de cada doença. “Para chegarmos ao ponto de entregar um tratamento, precisamos testar. É isso que neurocientistas ao redor do mundo estão buscando, inclusive nós, aqui no Idor”, afirma Marins.

Da FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/05/2019
Foto: Instituto Idor, Neurociências. Imagens Médicas.

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