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Nos bastidores, governo admite que novo protocolo da cloroquina “fracassou”

Nos bastidores, governo admite que novo protocolo da cloroquina “fracassou”

os bastidores, governo admite que novo protocolo da cloroquina “fracassou”

Após ampliar o uso da droga no tratamento da Covid-19, entidades científicas rechaçaram a eficácia. Contudo, presidente Bolsonaro apoia

Quase 10 dias após o Ministério da Saúde mudar o protocolo do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, a pedido do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), nos bastidores técnicos do governo admitem que a guinada não obteve os resultados esperados, ou seja, não houve adesão em massa no meio médico.

A ampliação do uso do medicamento para casos leves da doença ocorreu em 20 de maio. Bolsonaro defende a droga como uma alternativa contra a infecção. Cientistas ao redor do mundo e a Organização Mundial da Saúde (OMS) interromperam estudos, não indicam o uso, atestam que não há indícios sólidos de eficácia e alertam para graves efeitos colaterais.

O Metrópoles ouviu duas fontes do alto escalão da pasta sob condição de anonimato. Mesmo sendo uma bandeira defendida de forma veemente pelo presidente, a equipe técnica que assessora o Ministério da Saúde é categórica: não houve o impacto esperado pelo Palácio do Planalto.

Dois motivos ancoram o resultado. O primeiro é ligado às recomendações da OMS e de outras entidades científicas que, na visão desses técnicos, contrastam com o entendimento do governo brasileiro. Isso criou insegurança no uso e impediu as prescrições. O outro é a possibilidade de questionamento jurídico do médico, mesmo quando o paciente assume o risco ao assinar o Termo de Ciência e Consentimento.

Um interlocutor da Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde explica que as publicações de artigos internacionais contrárias ao uso do medicamento impactaram a iniciativa. “Como a comunidade internacional tem estimulado o não uso da cloroquina, apresentando estudos importantes nas últimas semanas, o protocolo ficou enfraquecido”, conclui.

Outra fonte da pasta, ligada à Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), tem a mesma compreensão, mas é menos crítica. “O protocolo baliza o uso no SUS [Sistema Único de Saúde] e preserva o direito do médico prescrever e de o paciente aceitar. A mudança não significou necessariamente uma nova prática nos hospitais”, pondera.

Protocolo controverso
Logo após ser sacramentada, governadores rechaçaram o uso da cloroquina, como fez o governo de São Paulo. O mais recente caso ocorreu no Rio Grande do Norte. A Secretaria Estadual da Saúde trata desde abril pacientes com Covid-19 usando o medicamento. Na próxima semana, o órgão deve publicar um normativo suspendendo o uso. Recife, capital pernambucana, retirou o medicamento do guia de cuidados da cidade.

Contrária ao uso, a deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP) apresentou nesta semana um pedido à Procuradoria-Geral da República (PGR) para proibir o novo protocolo do medicamento aprovado pela Ministério da Saúde. A parlamentar cita a falta de comprovação da eficácia do remédio como argumento.

Cabe ao médico a decisão de usar a substância e é necessária a manifestação por escrito da anuência do paciente com termo de responsabilidade. De acordo com a advogada Mérces da Silva Nunes, especializada em Direito Médico, o termo serve para afastar a responsabilidade do profissional.

“No caso da cloroquina, o médico tem o dever de informar ao paciente os efeitos adversos mais frequentes que aquele medicamento pode provocar. Por ser ainda um remédio experimental para o coronavírus e com muitos efeitos colaterais, o paciente pode ficar em uma situação complicada caso queira contestar algum problema futuro em uma discussão judicial. Há necessidade de prudência e cautela no uso da cloroquina, que deve ser feito somente mediante prescrição médica e desde que confirmado o diagnóstico de Covid-19”, alerta.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) não recomenda o uso da cloroquina associada, ou não, a azitromicina, enquanto não houver evidências científicas definitivas.

“No entanto, para os pacientes que optarem pela realização do tratamento, orienta que, desde que resguardada as condições sanitárias necessárias para minimizar o risco de contágio de profissionais de saúde e outros pacientes, que sejam realizados eletrocardiogramas a fim de avaliar a evolução do intervalo QT [distúrbio do ritmo cardíaco], de forma a subsidiar o médico quanto à pertinência de se persistir no tratamento. Para tanto, a Telemedicina pode ser uma alternativa viável para suportar essa iniciativa”, afirma, em nota.

A imunologista e oncologista Nise Hitomi Yamaguchi, diretora do Instituto Avanços em Medicina, é uma das poucas referências médicas que defendem o uso. Ela é próxima do governo Bolsonaro e chegou a ser cotada para o cargo de ministra.

“Não há comprovação científica de nível A [estudos randomizados, prospectivos, controlados] sobre a eficácia desses medicamentos, mas também, não há comprovação científica nível A de que esses medicamentos não funcionam. O único estudo randomizado publicado foi o do Amazonas, que não concluiu que o protocolo não funciona, mas sim, que doses acima da dose de segurança são tóxicas”, salienta Nise, em nota.

Outros entendimentos
Na última segunda-feira (25/05), a OMS informou que suspendeu testes com cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19. A decisão, uma medida de cautela que poderá ser revisada, foi tomada depois que a revista científica britânica The Lancet publicar estudo com 96 mil pacientes que apontava maiores taxas de mortalidade em pacientes que foram tratados com a droga.

Após a decisão da OMS, o Ministério da Saúde afirmou que monitora um banco de dados com mais de 200 protocolos de diversos países e que as orientações do governo brasileiro estabelecem o direito do paciente em optar pela medicação.

Crise e demissão
A mudança neste protocolo resultou na demissão de dois titulares do Ministério da Saúde: o médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta e o oncologista Nelson Teich. Atualmente, a pasta é comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello.

Apesar de o Ministério da Saúde ter mudado a recomendação, o governo fez uma ressalva técnica no documento admitindo que, na prática, a droga não tem eficácia comprovada.

O protocolo prevê o uso do medicamento para pacientes com sintomas leves, bem como crianças, gestantes e mulheres que tiveram filhos recentemente.

Entre as fontes de embasamento, o documento cita o Conselho Federal de Medicina (CFM), estudos próprios do Ministério da Saúde, a Agência Europeia de Medicina, reportagens publicadas em sites, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o Hospital Israelita Albert Einstein e artigos científicos.

Versão oficial
O Metrópoles procurou o Ministério da Saúde, mas a pasta não se manifestou até a última atualização desta reportagem. O espaço continua aberto para esclarecimentos.(Metrópoles)

Imagem: HUGO BARRETO/METRÓPOLES

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