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‘Não seja blasé com a covid-19’, diz piloto que ficou 2 meses em coma e perdeu movimento das pernas

‘Não seja blasé com a covid-19’, diz piloto que ficou 2 meses em coma e perdeu movimento das pernas

‘Não seja blasé com a covid-19’, diz piloto que ficou 2 meses em coma e perdeu movimento das pernas

Um piloto escocês que passou mais de dois meses em coma induzido, usando um respirador em uma unidade de tratamento intensivo no Vietnã, fez um alerta para os que têm relaxado em medidas de prevenção contra o coronavírus.

“Não sejam blasés com o coronavírus.”

Stephen Cameron, de 42 anos, ficou conhecido nacionalmente no Vietnã, que não registra nenhuma morte pelo covid-19, por conta da gravidade de seu quadro de saúde.

Lá, ele era conhecido como “Paciente 91” — apelido que recebeu em março, quando foi internado.

A capacidade do pulmão de Cameron, que chegou a sofrer falência múltipla de órgãos, se reduziu a 10% da original no auge da doença. Aproximadamente 30 quilos mais magro, ele ainda tenta voltar a andar.

“Sou um exemplo vivo do que esse vírus pode fazer e de como é grave”, disse ele à BBC, já em uma cama de hospital em Wishaw, na Escócia.

“As pessoas podem fechar a cara sobre terem que usar proteção ou manter distanciamento de 2 metros, todas essas coisas, mas eu tive a doença e fiquei 10 semanas ligado a aparelhos”, afirmou. “Não é brincadeira. É muito sério.”

Seus médicos dizem que ele agora enfrenta “um longo caminho” para a recuperação.

‘Paciente mais doente da Ásia’

Para o médico respiratório Manish Patel, responsável pelos cuidados de Cameron desde seu retorno à Escócia, em 12 de julho, “as pessoas dizem que entrar na UTI é como correr uma maratona. No caso de Stephen, acho que ele correu várias ultramaratonas”.

O piloto fez um alerta sobre a possível resposta limitada que sistemas de saúde pública podem dar a casos graves como o seu.

“Não acho que o NHS (sistema de saúde pública britânico, similar ao SUS brasileiro) pode responder a contento se houver uma onda de pessoas que precisem da quantidade de cuidados e suporte de vida que eu precisei.”

O piloto passou 68 dias ligado a um respirador.

Na maior parte do tempo também dependeu de uma máquina Ecmo, uma ferramenta de suporte de vida que permite respiração extracorporal e é usada apenas nos casos mais extremos.

“Me disseram que eu era o paciente mais doente da Ásia durante um período”, disse ele.

“E por causa das coisas que aprenderam com o meu caso, os médicos do Vietnã foram capazes de empregar esse conhecimento em pacientes com quadros semelhantes.”

Coma induzido

Patel disse à BBC que Cameron ter sobrevivido tanto tempo em coma induzido por medicamentos foi “excepcional”.

“Não temos muita experiência ou referências sobre pessoas ligadas a um respirador por mais de um mês e meio”, disse ele.

Segundo dados da Sociedade de Terapia Intensiva Escocesa, três quartos dos sobreviventes de covid-19 permanecem em terapia intensiva por menos de 21 dias e são ventilados por um período ainda mais curto.

Por pouco, Cameron não precisou passar por um transplante de pulmão depois que sua capacidade de respiração caiu para 10%.

Ele também sofreu falência de vários órgãos e perdeu 30 kg de peso enquanto estava em coma.

Hoje, ainda luta para voltar a caminhar.

“Quando acordei, eu pensei: poderei voltar a andar?”, disse. “Eu não sabia se estava paralisado por toda a vida, porque não conseguia sentir meus pés.”

“Eu não tinha certeza se esse seria o fim da minha carreira de piloto.”

O objetivo de Cameron é pilotar um avião novamente “no próximo ano”. Mas sua reabilitação será longa e árdua, e sua segurança no emprego foi posta em dúvida pelos efeitos devastadores que a pandemia provocou na indústria asiática de viagens aéreas.

Nenhuma morte por covid-19

Ele chegou mais perto de morrer pelo coronavírus do que qualquer outra pessoa no Vietnã, que teve menos de 10 internações na UTI e menos de 500 casos confirmados.

O esforço para mantê-lo vivo e evitar uma única morte pelo vírus em um país de 95 milhões de pessoas envolveu os melhores médicos de tratamento intensivo do Vietnã.

Sua história foi manchete em jornais nacionais e boletins de notícias na TV.

“A grande maioria do país conhecia o ‘Paciente 91’, que era meu apelido”, disse ele.

“No telejornal noturno mais importante, eles mostraram e discutiram meus raios-X, minhas tomografias, as estatísticas sobre o meu quadro em um segmento de cinco minutos.”

“Devo dizer que fico um pouco chocado quando penso sobre isso”, diz.

Centenas de jornalistas e cidadãos vietnamitas assistiram à saída de Cameron do hospital na cidade de Ho Chi Minh, duas semanas atrás.

Infectado em um bar frequentado por estrangeiros que vivem no país, ponto de origem do maior surto do sul do Vietnã, seu caso causou polêmica, pois havia especulações de que ele próprio teria sido a fonte do surto.

“Parecia haver um desejo de atribuir a mim a chegada do vírus do exterior, já que eu tinha feito uma viagem para Bangcoc para um visto uma semana antes”, disse ele à BBC em junho, quando ainda estava no Vietnã.

“Eu fui a primeira pessoa a levantar as mãos e dizer: ‘Olha, não me sinto bem’. Era inevitável que eu fosse culpado”.

Desde o retorno de Cameron ao Reino Unido, o ministro do Exterior do Reino Unido, Dominic Raab, agradeceu a seu colega no Vietnã, o ministro das Relações Exteriores Pham Binh Minh, pelo tratamento dos 20 pacientes britânicos por covid-19 no país, incluindo Cameron.(BBC News Brasil)

Foto/Reprodução

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