Open top menu
Livro sobre sequestros na ditadura já traz à tona outras vítimas

Livro sobre sequestros na ditadura já traz à tona outras vítimas

Obra foi lançada ontem à noite, em São Paulo, mas durante duas semanas de divulgação o autor foi procurado por 19 outros possíveis sequestrados, mesmo número relatado na publicação

Ao “quebrar a barreira da invisibilidade” de pessoas sequestradas na ditadura quando eram bebês ou crianças, o livro Cativeiro sem Fim, do jornalista Eduardo Reina, já começa a levar a outras descobertas. Segundo o autor, que lançou a obra ontem (2) à noite, em São Paulo, em apenas duas semanas de divulgação ele já foi procurado por outras 19 pessoas que também podem ter sido sequestradas naquele período, exatamente o número de casos revelados no livro, que surge no momento em que o próprio Estado, representado pelo governo, faz apologia do golpe ocorrido em 1964. “Vamos mostrar que a ditadura brasileira foi sanguinária, bruta, totalmente diferente do que falam por aí.”

O local escolhido para o lançamento foi simbólico: o Centro Universitário Maria Antônia (da Universidade de São Paulo), na rua de mesmo nome na região central de São Paulo, palco de conflitos em 1968 e de uma célebre “batalha” entre estudantes. O ex-secretário de Direitos Humanos Rogério Sottili, atual diretor do Instituto Vladimir Herzog (IVH), ressaltou a continuidade da violência por parte do Estado e lamentou o momento político, “um dos piores da nossa história”, destacou. “Tudo isso acontece porque não tivemos a capacidade de promover memória, verdade, justiça no nosso país.”

Em um salão nobre lotado, passaram nomes como os do ex-deputado Adriano Diogo, que presidiu a Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa Paulista, do vereador Eduardo Suplicy e dos jornalistas Bernardo Kucinski, Zuenir Ventura e Marcelo Godoy, autor de livro sobre o DOI-Codi de São Paulo (A Casa da Vovó), o ex-secretário estadual da Justiça Belisário dos Santos Júnior, a psicanalista Maria Rita Kehl, que integrou a Comissão Nacional da Verdade, o ex-ministro de Direitos Humanos Paulo Vannuchi e o ex-deputado federal José Genoino, preso no início da chamada Guerrilha do Araguaia – 11 dos 19 casos relatados por Reina ocorreram naquela região, nos anos 1970.

Um dos momentos mais emocionantes da noite aconteceu quando o jornalista apresentou Iracema de Carvalho Araújo, uma das personagens do livro. Em 1964, ela e sua mãe, Lúcia Emília de Carvalho Araújo, foram presas em Recife. Lúcia era professora e filiada ao PCB. Dava aulas para filhos de camponeses. Mãe e filha foram torturadas no DOI-Codi pernambucano. Lúcia desapareceu. “Tenho de agradecer por estar viva. Por ter uma idade, um nome. Por eu ser alguém”, disse Iracema, com dificuldade.

Justiça de Transição

A presidenta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, a procuradora regional da República Eugênia Gonzaga, disse que o país vive “um momento extremamente delicado”, tornando ainda mais importante a presença das famílias das vítimas, que no final do ano passado fizeram um primeiro encontro nacional. “Estamos colhendo o resultado da não aplicação da Justiça de Transição no Brasil. O país tem sido muito lento e deixou de fazer esses deveres de casa”, afirmou, acrescentando que o número real de vítimas é várias vezes maior que o dado oficial, que não chega a 500.

Eugênia lembrou que, desde 2010, um grupo de procuradores lançou 39 denúncias criminais contra agentes do Estado responsáveis por graves violações de direitos humanos durante a ditadura. “Não tem nem 10 dessas ações em andamento”, comentou. E o próprio governo Bolsonaro tratou de completar o desmonte, iniciado por Temer, da estrutura da Comissão de Anistia, que passou do Ministério da Justiça para a pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

A procuradora conta que Reina tomou a iniciativa de procurar as autoridades para denunciar os crimes que havia apurado, antes de escrever o livro, que ela descreveu como “exercício de jornalismo e cidadania”. O depoimento formal do jornalista resultou em seis representações, que correm em sigilo – segundo Eugênia, uma delas já foi arquivada, no Paraná. Editado em parceria entre o IVH e a Alameda Editorial, Cativeiro sem Fim tem prefácio do jornalista Caco Barcellos, que participaria do evento de ontem, mas embarcou na véspera para a África, em viagem profissional. De lá, ele mandou uma saudação em vídeo.

Mas se o momento é adverso, algumas manifestações alimentam esperança, acrescentou a presidenta da Comissão Especial, citando a 1ª Caminhada do Silêncio, ocorrida no último domingo (31) em São Paulo. Enquanto os organizadores esperavam no máximo 2 mil pessoas, integrantes da insuspeita Guarda Civil Metropolitana falaram em até 10 mil. “Tivemos um grande garoto-propaganda”, ironizou a procuradora, referindo-se ao presidente da República e sua defesa do golpe de 1964, que provocou repúdio generalizado.(RBA)