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Formatura da primeira turma de haitianos do Brasil tem críticas a Bolsonaro

Formatura da primeira turma de haitianos do Brasil tem críticas a Bolsonaro

Paraninfa criticou diretrizes do novo governo e desejou força aos formandos: “Devem se preparar para tempos difíceis”

A primeira turma de universitários haitianos do Brasil colou grau na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) na noite desta quinta-feira (10) em Foz do Iguaçu, região Oeste do Paraná. Além dos caribenhos, estudantes de outras 10 nacionalidades concluíram suas graduações nos cursos de Saúde Coletiva, Ciências Econômicas, Ciências Políticas e Sociologia, Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar, e Relações Internacionais e Integração. Ao todo, a Unila oferta vagas em 29 cursos de ensino superior e oito de mestrado.

A solenidade aconteceu um dia após o presidente Jair Bolsonaro (PSL) confirmar que o Brasil não será mais signatário do Pacto Global para Migração, da Organização das Nações Unidas (ONU). Escolhida para ser a paraninfa dos formandos, a doutora em Economia Política Internacional, Marina Machado Gouveia, ex-professora da Unila, ressaltou na cerimônia o momento de instabilidade que o país e a instituição enfrentam.

“É um governo que ataca fortemente a educação em todos os níveis no Brasil. Que quer que a educação seja vinculada ao âmbito militar e religioso, e isso incide sobre a Unila fortemente, porque tem uma virada na política externa brasileira, com alinhamento total aos Estados Unidos. Por outro lado, uma virada também na educação brasileira, que deixa de enxergar a multiplicidade dos nossos povos e a necessidade de reivindicar essa multiplicidade como riqueza. Então, [a Unila] é um projeto que está fortemente ameaçado”, lamenta.

Com 4.061 alunos matriculados, sendo 2.825 deles brasileiros, a instituição abriga estudantes de outros 23 países, distribuídos por América Latina e Caribe. A partir deste ano, não haverá mais fronteiras geográficas para se estudar na instituição: a universidade abriu suas portas para migrantes refugiados e portadores de visto humanitário de todo o planeta. Até o momento, mais de 1,8 mil alunos estrangeiros estão inscritos. As novas matrículas serão abertas a partir de fevereiro. Aos brasileiros, foram destinadas 837 vagas.

A Unila foi fundada em 2010 pelo ex-presidente Lula (PT), em cerimônia realizada em Brasília. O projeto havia sido apresentado ao Congresso Nacional em 12 de dezembro de 2007, como instrumento de formação voltado à integração latino-americana, e foi aprovado por unanimidade na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Juramento

“Juro defender e aplicar a missão da Unila com base na identidade latino-americanista, plurilinguista e multicultural, pilares da integração social, econômica e política em nossa América”, discursou em espanhol a paraguaia Alma Monges, oradora estrangeira escolhida para representar a turma, recém-formada em Ciência Política e Sociologia.

Em nome dos haitianos, James Berson Lalani agradeceu a hospitalidade dos brasileiros. “Gosto muito do povo brasileiro. Abriu oportunidade não só para mim, mas para vários estrangeiros migrantes. Isso é muito bom para uma sociedade que está em desenvolvimento”, analisa o jovem, que acabou de se formar em Saúde Coletiva e já está com emprego garantido em sua área de atuação em Minas Gerais.

Estrangulamento

A postura integralista e expansionista adotada pela Unila vai de encontro ao estrangulamento orçamentário da instituição, agravado desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (PT), em agosto de 2016. Nos últimos três anos, a universidade viu seu investimento cair de R$ 40,7 milhões para R$ 8,9 milhões.

Os cortes promovidos pelo governo Michel Temer (MDB) influenciaram diretamente no sucateamento das condições de trabalho dos professores e na assistência estudantil oferecida aos estudantes. Atualmente, 23% deles são contemplados com auxílios-moradia, alimentação e transporte. Das 12 novas graduações anunciadas para começar em 2015, nenhuma saiu do papel e não há previsão de início.

Elefante branco

Projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a construção da sede própria da universidade, iniciada em 2011, está paralisada desde 2014, com 42% de área concluída. Sem uma sinalização por parte do governo federal de que será retomado, o empreendimento se transformou em um “elefante branco”. Desde abril de 2018, a universidade está condenada a ressarcir o consórcio responsável pela construção do imóvel em R$ 32 milhões, devido a supostas irregularidades na rescisão do contrato. A assessoria jurídica da instituição recorre da sentença em instâncias superiores.

Futuro

Aos futuros alunos da Unila, a paraninfa da primeira turma de haitianos formada no Brasil desejou consciência, mobilização e força. “Eu diria que a gente está entrando em uma época muito difícil, de recrudescimento do imperialismo, que a gente está à beira de uma guerra mundial de novo tipo. E que, não só no Brasil, mas no mundo todo, certamente a gente vai viver tempos muitos difíceis. Eles devem se preparar para estes tempos difíceis, porque só a luta constrói”, concluiu.(Brasil de Fato)