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VÍTIMAS DE ITATAIA

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VÍTIMAS DE ITATAIA

Ainda outro dia, o povo brasileiro se autoproclamava um gigante acordado e atento. No entanto e infelizmente, o que esse vê ainda é um continente inteiro – o Sul-Americano – deitado eternamente em um berço nada esplêndido. O berço da ignorância, da desinformação e do desinteresse.

O velho porém tão atual discurso de que a informação e a educação não interessam aos governos e seus parceiros nunca foi tão válido. Assuntos que não se discutem na televisão nem no rádio, porque é muito melhor para os governos – e para as empresas suas aliadas – que a canalha não fique mesmo sabendo.

Quando nós professores falamos em sala de aula que os alunos – e seus pais, parentes e amigos – precisam de mais leitura em suas vidas, e eles rejeitam a nossa proposta, nada poderia nos deixar mais tristes! Porque a não leitura denota desinteresse, e o desinteresse denota desinformação e ignorância, e ignorância gera pobreza, dificuldades em encontrar trabalho, maus hábitos inclusive de saúde e alimentares, dificuldades de relacionamento e convivência social, complicações à saúde.

Apoiados na nossa ignorância e desinformação, os governos, e os empresários seus aliados e com altos interesses, conseguem ludibriar populações inteiras, com propaganda mentirosa, sobre os mais diversos assuntos, como por exemplo a exploração mineral, como a de fosfato e urânio de Itataia, na divisa dos municípios de Santa Quitéria e Itatira, no interior do Ceará, a pouco mais de 200km de Fortaleza.

Escorada na desinformação e desinteresse da população, a administração desses municípios, Itatira e Santa Quitéria bem como a própria administração estadual, roubam a voz ao povo em apoio à exploração da maior jazida de urânio em território brasileiro, com mais de 142 mil toneladas de minerais associados a fosfatos. Consoante à posição do prefeito, o presidente da Câmara põe à disposição “cada vereador como defensor do projeto que vai colocar Santa Quitéria no rumo certo”.

Mas e o povo? O povo sabe de verdade do que se trata? De acordo com a integrante da Plataforma Dhesca Brasil (Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais), Cecília Mello, em entrevista sobre a temática à Radioagência NP, “O quadro de desinformação é grave”, e muito há ainda a ser estudado. Ademais das promessas feitas pelos especialistas da INB (Indústrias Nucleares do Brasil) e da Galvani – empresa que explorará a mina – da criação de empregos produzidos pela própria mina, pelas unidades de produção de fertilizantes, alimentos para animais e do concentrado de urânio, que serão instaladas, e pelo crescimento do comércio local e outros benefícios apregoados em prol do município, e das medidas que serão tomadas para preservar o meio ambiente e a saúde da população – questões que, segundo eles, “despertam maior interesse” –, há muito mais a ser avaliado e divulgado.

O urânio tem aplicações as mais variadas – desde a fotografia, passando pelo beneficiamento madeireiro chegando à produção de energia nuclear. Mas um dos seus principais usos é na produção de armas nucleares de grande poder destrutivo.

Infelizmente isso ainda não é o pior! Em regiões onde ocorreu a exploração de urânio, como Poços de Caldas – MG, o final não tem sido dos mais felizes. Do famoso balneário aonde as famílias iam passar parte de suas férias e recém-casados passavam lua de mel, hoje não resta mais que uma “cidade fantasma”. Em Caetité, na Bahia, cuja mina se encontra atualmente em atividade, a população convive com níveis de radiação 100 vezes acima da média mundial e sofre as terríveis consequências dessa exposição nuclear: enfermidades que surgem e são abafadas por omissão – e por conivência – das entidades públicas de saúde, pois, como o organismo não reconhece a presença do urânio, ele não é excretado e se acumula no corpo, pela longa exposição e afeta diretamente o sangue, os ossos, os rins e o fígado, gerando uma exagerada incidência de neoplasias e cânceres de diversos tipos, entre eles, o mais comum, o câncer de pulmão; poluição do ar, das águas e da terra, impossibilitando as populações rurais de viverem de seu próprio trabalho nas comunidades próximas da mina: quase ninguém compra sua produção agrícola, carne, leite ou queijo, por medo da contaminação causada pelo urânio. Isso tudo além do assédio moral que sofrem os trabalhadores na mina.  E no caso do Estado do Ceará, a perda da água, já que o governo do Estado, na pessoa do senhor Cid Ferreira Gomes, disponibilizou ao uso da Galvani, segundo informativo do movimento La Via Campesina, 64% da água de dois açudes importantes para o abastecimento de água das populações daquela macrorregião: Serrote e Quixaba. E água aqui vale muito mais que ouro, muito mais que o fosfato e o urânio que de lá será retirado.

A pior parte fica para o final: depois do esgotamento das minas onde antes se explorava o urânio, elas se transformam numa espécie de lixão, como se diz no Ceará, em rampa do lixo nuclear brasileiro. Como os depósitos de lixo nuclear no Brasil são temporários, essas cidades, por “descuido” dos governos, acabam se tornando rampas permanentes, perpetuando a contaminação, as doenças, a insuficiência de recursos à sobrevivência das populações.

Um outro problema de nossa mina, a de Itataia, no Ceará, é com o licenciamento, já que todas as atividades relativas à mineração nuclear têm que passar obrigatoriamente pela esfera federal – ou seja, são responsabilidade do Ibama –, e esta licença, em específico, foi concedida pelo órgão estadual de meio ambiente – Semace – sendo ele, portanto, ilegal.

Restam algumas perguntas: já que a empresa é premiada com a isenção fiscal, quem lucrará, afinal, com todo isso? É esse o cara que a senhora presidenta do Brasil quer colocar nos altos escalões do governo brasileiro? E, povo brasileiro, vamos nos deixar representar por quem de verdade não representa nossos interesses?

* Lucas Carneiro, Poetinha, é escritor, poeta e cordelista. Pós-graduando em Linguística, é professor de Língua Portuguesa e de Língua Espanhola. Nascido em 1964, 15 dias após o golpe dos militares contra o povo brasileiro, viveu todo o período da ditadura. Inconformado com a situação atual do país registra seu descontentamento em seus poemas, crônicas, cordéis e artigos, como o ora publicado aqui.

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