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PROSTITUIÇÃO NO SENADO

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PROSTITUIÇÃO NO SENADO

As máximas de que “uma imagem vale mais que mil palavras”, ou “contra fatos [ou fotos] não há argumentos”, são hoje afirmação sem sentido prático. A moda agora é as pessoas fazerem coisas, dizerem leviandades, tomarem atitudes indevidas, e depois dizerem que foi montagem, ou nas palavras de um autotitulado “escritor” daqui do Ceará, um “HOAX“, uma falsa notícia. Esse poder as tecnologias da informação e da comunicação outorgam, mesmo a quem não as sabe usar, mas já ouviu delas falar. E isso não é privilégio mais de ricos e poderosos: recentemente, um pedreiro que – usando a terminologia correta – supostamente seduziu e estuprou uma menina de nove anos aqui no Estado, usou tal argumentação em pleno noticiário: “foi montagem”. A classificação de “violência gratuita” – pela Secretária Nacional dos Direitos Humanos – da tentativa frustrada de assalto (em que o cidadão infrator foi atingido por um capitão da Polícia Militar do Estado de São Paulo, acontecimento de grande repercussão na imprensa e na internet) foi posteriormente classificada como fake, os “culpados” colocados em seus devidos lugares, e até mesmo a arma do meliante apresentada como falsa.

Agora, um outro “HOAX“, outra “notícia falsa” afirmava que o Senado haveria aprovado projeto de lei que concedia bolsa de 2.000 reais mensais a garotas de programa, faltando, naquele então, somente a sanção pela presidência da República. A notícia pode até ser falsa, mas preocupa sua verossimilhança devido ao fato de os “representantes dos poderes públicos virem protagonizando atos capazes de deixarem o povo estarrecido”, palavras do jornalista que publicou a notícia. Acuado pela senadora a quem atribuíra a autoria do projeto, ameaçado de processo, e de ter a polícia federal no seu encalço, o blogueiro desmentiu tudo, e tentou – ainda que tenha afirmado não ser esse o fito – retratar-se. Uma frase marcante intitulava sua retratação: “quando mentiras cretinas [como essa] passam a se tornar verossímeis, é sinal que o país vai mal”.

Que o Universo permita que seja, na verdade, uma daquelas grandes mentiras de fim de ano, ou de início, como a loira do banheiro, a perna cabeluda, ou o féretro que andava e cujo defunto levantava e prestava continência esquinas afora. Porque essa é uma proposta não menos que imoral. Retirar 2.000 reais mensais e dá-los a profissionais que já são pagas pelo seu trabalho. Profissionais sim, reconhecidas pelo Cadastro Brasileiro de Ocupações – CBO, que, como tal, recebem o pagamento pelo serviço que prestam, como qualquer outro profissional. Uma bolsa para garotas de programa cuidarem melhor de si, e de sua estética, para se apresentarem melhor, mesmo tendo o seu próprio salário, não seria menos que imoral. Seria classificar o povo de trouxa e de otário.

Que seja mentira a “bolsa-mamãe” de 2.000 reais, como também tinha esperanças que fossem mentira a notícia da bolsa-crack, a do auxílio-reclusão e outros valores expendidos à guisa de benefícios e/ou programas sócio-assistenciais, que, certamente, são capados do bolso do povo, todos eles. Não se deveria falar, aqui, de programa sócio-assistencial. Porque esses programas são nada menos que desvio de verba pública, aplicação indevida de recursos que pertencem ao povo, e o povo trabalhador brasileiro está cansado de ser roubado, enganado, ludibriado.

A título de esclarecimento, os alunos do Pronatec recebem bolsa de 100 reais mensais para concluírem seu ensino básico, em um número máximo de 18 parcelas. De alunos para professores, os tutores da universidade aberta, entidade de ensino superior, recebem bolsa no valor de 765 reais, mais 177 reais de diárias de viagem perfazendo um total de 942 reais mensais, graduados e pós-graduados; não têm plano de saúde, odontológico, ou “estético”, ou auxílio pela periculosidade a que se expõem nas viagens, devido à violência das estradas. Não têm vínculo empregatício e, portanto, nenhuma assistência social.

O salário mínimo, que é o que ganha a maioria dos trabalhadores e aposentados brasileiros é hoje de pouco mais de 720 reais, e “sofre” aumentos anuais de nunca mais que cinco pontos percentuais. Nunca mais do que isso porque oneraria os cofres públicos. Alguns governos de Estado brasileiros não pagam o piso salarial dos professores porque oneraria os cofres públicos. Categorias e mais categorias profissionais, todos os anos, por ocasião de suas datas-base, entram em greve por melhores salários, que nunca são alcançados porque isso oneraria os cofres públicos. Por outro lado, o salário dos parlamentares é altíssimo, e os aumentos de que “goza” são sempre de dois dígitos e bem acima dos 50%, e isso certamente não onera o tesouro brasileiro, já que eles os seguem obtendo, todos os anos, ou sempre que querem.

O bolsa-família varia de 22 a 200 reais, dependendo da renda familiar e do tamanho da família. O salário-família do trabalhador brasileiro é de aproximadamente 35 reais por filho até 14 anos ou inválido, se o trabalhador ganhar salário mínimo. Em contrapartida, a bolsa-crack é de 1.350 reais, para famílias de jovens viciados “cuidarem” de seus dependentes, perdoem-me o trocadilho; o auxílio reclusão é de 1.025 reais, ambos os benefícios bem mais altos que o salário mínimo.

Nós, do povo, trabalhamos não mais que para pagar impostos, e pagamos pelos desmandos de uma série de governos sem moral e sem princípios. E estamos cansados de ver nosso suor ser desviado para programas de governo que incentivam e sustentam a corrupção, a criminalidade, a prostituição, a safadeza e a sem-vergonhice instauradas de norte a sul deste país. Já não se vive mais a época em que o povo não tinha a mínima noção dos acontecimentos.

É para promover assistência aos do povo? E por que, então, os “benefícios” não se estendem ao povo, em sua totalidade? Por que o povo não recebe benefícios como qualidade no atendimento à saúde, qualidade na educação, qualidade na alimentação, qualidade no lazer, maior e melhor qualidade de vida? Por que não se cuida melhor das escolas, das universidades? Por que não se cuida melhor da habitação? Dos transportes públicos? Da segurança pública? Por que as mulheres brasileiras não são tratadas com mais respeito e não há melhores hospitais com equipamentos adequados e modernos, e mais médicos para cuidarem delas? Por que não se fazem campanhas sérias de saúde e não se aparelham decentemente hospitais como o Hospital da Mulher – em Fortaleza, e não se contratam profissionais de saúde [e estética] e para lá não se levam as profissionais do sexo para, desse modo, se cuidarem melhor? Por que não se lhes oferecem cursos, formações, informações?

É bom que se fique atento, porque agora que o blogueiro lançou a ideia, não demorará que um louco se muna de caneta e papel e apresente “projeto assistencial” como o aqui discutido. Já tem louco chamando a isso de “proteção social”. E classificando de egoístas e de preconceituosos os que com ela não concordarem.

* Lucas Carneiro, Poetinha, é escritor, poeta e cordelista. Pós-graduando em Linguística, é professor de Língua Portuguesa e de Língua Espanhola. Nascido em 1964, 15 dias após o golpe atribuído aos militares contra o povo brasileiro, viveu todo o período da ditadura. Inconformado com a situação atual do país, registra seu descontentamento em seus poemas, crônicas, cordéis e artigos, como o ora publicado aqui.

 

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