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POLÊMICO, EU?

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POLÊMICO, EU?

Meu amigo Sérgio Figueiredo me chamou de polêmico. Será? Melhor: serei? Bom, então, vou falar isso de um fôlego só, porque é temática verdadeiramente revoltante. A Comunidade Patriota, página do Facebook, publicou notícia em que aparecia foto de uma senhora, de cabelos grisalhos, cabisbaixa, a mão cobrindo o rosto, que, segundo a Comunidade, era uma professora, já aposentada, que desenvolvia um projeto voluntário em uma Escola Estadual na zona sul de Belo Horizonte, Minas Gerais. O projeto, com participações também voluntárias de alunos da Escola Estadual Professor Caetano Azeredo, consistia em que os participantes limpassem as pichações feitas pelos próprios alunos, no interior do prédio. Segunda edição do projeto, com resultados já saltando aos olhos da comunidade escolar, inclusive com os alunos curtindo o trabalho social que desempenhavam, alguns se propondo a não mais picharem as paredes da escola por se darem conta do quão trabalhoso era para os funcionários limparem aquela sujeira, e constatando o quão mais bonita ficara a escola sem as tais pichações. Uma proposta apreciável senão invejável, de conscientização e ação em prol de melhorias nas atitudes comportamentais – sociais e individuais –, e formadora de cidadãos mais sãos e mais conscientes, com o perdão da repetição, e mais respeitadores dos próprios direitos, e dos de outrem. Inegável que todos temos direito a um ambiente sadio e, portanto, limpo, higienizado, arejado, para nosso aprendizado. Um ambiente saudável, sem dúvida, facilita, e estimula, o processo ensino-aprendizagem. No entanto, um espírito de porco (com o devido pedido de perdão ao porco!) encontrou-se no direito de estragar esse trabalho, e denunciou a professora por (acreditem!) exploração do trabalho infantil! A professora, segundo o sitio que publicou a notícia, foi presa, algemada, jogada em uma viatura, e conduzida, presa, para uma delegacia. Não confirmei a notícia. Infelizmente, o dispêndio financeiro disso resultante não me permitiu ir a Belo Horizonte, cidade que eu aprecio muito, para comprovar a olhos vistos o acontecimento. O Patriota o chamou de “fato”, então acredito-o verídico. A velha senhora, experiente, professora, aposentada, voluntária, com a só intenção de formar cidadãos decentes, asseados, honrados e respeitadores, além de trabalhadores e honestos, foi condenada antes mesmo de investigada e julgada, e presa em flagrante. Istoo Brasil, o menor de idade não pode trabalhar. A lei proíbe, a sociedade assina embaixo, os pais apoiam, há até igrejas e pregadores que não apenas são coniventes, como também apregoam que os filhos não têm obrigação sequer consigo mesmos, de, por exemplo, arrumarem o seu próprio quarto, ou lavarem suas calcinhas ou cuecas, após o banho. No Brasil, o jovem, o adolescente e até as crianças podem roubar, podem assaltar, podem agredir as pessoas a faca, podem atirar nas pessoas, podem matar, podem estuprar, podem dilapidar e destruir bens públicos e/ou alheios. No Brasil, o jovem, o adolescente e até as crianças podem agredir e até matar os pais, os avós, os irmãos. No Brasil, o jovem, o adolescente e até as crianças podem apossar-se do dinheiro da aposentadoria dos avós para comprarem drogas. Eles podem se drogar, traficar drogas, sequestrar, votar, se prostituir, formar quadrilha, queimar as pessoas na rua.  Podem, através do tribunal do crime, julgar, condenar e executar os seus opositores. No Ceará não é diferente! Na Escola Francisca Fernandes Magalhães, da rede municipal, em Fortaleza, um único aluno, do turno da noite, vandaliza as ações dos professores e aterroriza toda a escola: com seu aparelho celular ligado na função música, no volume máximo, “curtindo seu funk”, invade toda e qualquer sala de aula que queira, agride colegas verbal e fisicamente, ameaça professores que reajam àquele seu comportamento, ameaça diretores, quebra mesas, cadeiras, carros, agride verbal e fisicamente professores, diretores, seguranças e desafia policiais, estribando-se no Código Penal Brasileiro, que diz, no seu artigo 27, que “Os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis”. E há colegas que o acham engraçado, “desenrolado”, terminologia usada para descrever gente desse tipo, muitas das vezes por medo de represálias ou por pura covardia mesmo, alguns até por se identificarem em suas atitudes. “O bicho é doido!”. E se os professores, seguranças, policiais, ou quaisquer autoridades esboçarem alguma reação, os colegas estarão filmando, com seus aparelhos celulares multifunções, para apresentarem como prova da brutalidade e do autoritarismo do envolvido, que passa, então, a ser considerado “na ilegalidade”. Na EMEIF(?) Dolores Barreira, outra escola do município de Fortaleza, onde trabalhei, uma das adolescentes, do 6º ano fundamental, buscava intimidar os professores dizendo-lhes que “tivessem cuidado, porque o namorado dela já havia “puxado” DCA[1]”. E o fazia plena de orgulho, e satisfeita de ser dele a escolhida. Como, pois, e com que discurso, poderemos “recuperar valores com ênfase em princípios morais”, ante situação como essa? Um aluno – menor – me dizia, em plena sala de aula, numa escola da periferia de Fortaleza: “professor, deixe dessas suas besteiras, que ninguém aqui quer saber disso, não. A gente aqui quer é roubar, pra dar trabalho à polícia”. Para significativo número dos adolescentes e jovens, confere-lhes certo status o fato de serem abordados pela polícia e/ou apreendidos ou presos, acima de tudo se passarem uma temporada em alguma casa de detenção ou presídio. E quanto mais “graduado” é o grupamento policial, mais importante se tornará o jovem abordado e/ou detido. É o auge dizer: “Aí, “cumpade”, levei o maior sacode dos cana do RAIO[2]! Bicho otário, “mermão”! Chegaram logo arrepiando o “nêgo”!” O jovem autor dessa frase se julga “no topo da cadeia alimentar”. E quanto mais forte o esquema de segurança da casa de detenção ou presídio, maior é o status que adquire o “jovem ou cidadão infrator” apreendido, para usar aqui uma terminologia politicamente correta. Para esse tipo de “aluno”, o professor é o “otário”. O policial é o “otário”. O diretor da escola, o avô, a avó, até o pai ou mãe, qualquer um que não comungue de suas ideias eivadas é “otário”. Uma professora com quem trabalhei na rede pública de Fortaleza excluiu um aluno indisciplinado de sua sala de aula e, no final do expediente, o rapaz, recostado ao carro dela, no estacionamento da escola, exibia duas armas de fogo – uma em cada mão. A professora teve que se afastar da escola porque não recebeu nenhum apoio: nem da escola nem da Secretaria Municipal de Educação nem da polícia, Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, da justiça, além do fato de ter gastado, do seu bolso, uma certa soma em dinheiro, em tratamento psicológico. Outra profissional, numa tentativa de agressão que sofreu por parte de uma mãe de aluna cuja filha fora suspensa das atividades escolares por desrespeito ao ambiente educacional – vindo a citada mãe cobrar satisfações à professora em vez de cobrá-las à filha –, esboçou reação e foi suspensa. E será perquirida e, provavelmente, punida por parte da Secretaria de Educação do Município. Isso tudo, os menores, jovens, adolescentes ou crianças podem fazer. Trabalhar, assumir responsabilidades, assumir os próprios erros, não podem. Resta saber quando a sociedade, a família vão tomar uma atitude. E restar, lamentavelmente, com a frase atribuída a Rui Barbosa: “De tanto ver triunfarem as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

 


[1] Delegacia da Criança e do Adolescente, casa de privação de liberdade de jovens infratores.

[2] Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas, grupamento de elite da Polícia Militar do Ceará.

 

* Lucas Carneiro, Poetinha, é escritor, poeta e cordelista. Pós-graduando em Linguística, é professor de Língua Portuguesa e de Língua Espanhola. Nascido em 1964, 15 dias após o golpe atribuído aos militares contra o povo brasileiro, viveu todo o período da ditadura. Inconformado com a situação atual do país, registra seu descontentamento em seus poemas, crônicas, cordéis e artigos, como o ora publicado aqui.

 

2 comentários

  1. Avatar
    28 janeiro, 2014

    Extremamente pertinente o texto.Sou do tempo em que se levasse um vermelho no Boletim para casa era castigo de no mínimo 3 meses.Sem televisão,sem ir ao clube,sem dinheiro para comprar doces e sem lanche.SUSPENSÃO??? EXPULSÃO??? Nem cogitávamos esta possibilidade.Se acontecesse ,”TÁVA MORTO”.

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      21 fevereiro, 2014

      É, Paulo Rezende, bons tempos aqueles… éramos tão felizes… e sequer sabíamos!!!

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