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OLHAR PARA FORA

OLHAR PARA FORA

Lucas Carneiro Poetinha*

 

O governo brasileiro fez um recente investimento da ordem de R$ 1.991.000.000,00 (isso mesmo, UM BILHÃO NOVECENTOS E NOVENTA E UM MILHÕES DE REAIS! – como diz minha mãe, “dinheiro que gente besta não conta”) na zona econômica especial do porto de Mariel, Cuba. Raúl Castro, o ditador cubano, agradeceu à presidenta Dilma Roussef, do Brasil, “por ajudar neste projeto transcendental para a economia nacional” – de lá.

Esse é um hábito – brasileiro – que muito mal faz ao povo – brasileiro. Olhar para fora! Olhar quase sempre para fora!

Um dos argumentos mais fortes da propaganda, da tentativa de comercialização de um produto qualquer é o mote de que “é importado!”, não importando de onde. O maior sonho de consumo do povo é viajar para a Europa, ou para os Estados Unidos, povos tidos como civilizados. Mesmo quem nunca foi, nem viu, tem como discurso “nos Estados Unidos”. Ou “na Eruropa”. Ou “em Londres” é assim, ou é assado. Prefere, o que pode viajar, ir conhecer as cidades históricas do exterior a conhecer Mariana, ou Ouro Preto, ou São João del Rey; conhecer as Ilhas Gregas a conhecer Fernando de Noronha, Marajó, ou Florianópolis… até com certa razão, porque os pacotes de viagens mais convidativos são os que levam os turistas ao exterior.

O brasileiro prefere seguir olhando para fora.

A segurança, agora não só do povo, está a zero, com policiais sendo atacados e mortos em seus locais de trabalho e o governador do Rio e seus familiares sendo alvos constantes de atentados; Fortaleza eleita a sétima cidade (frise-se!) mais violenta do mundo, apesar dos imensuráveis gastos do governo do Estado, na pessoa do vulgo Titia, com aparelhagem moderna para a polícia, incluindo patinetes ao custo unitário de R$ 28.500,00, dos quais nem sequer um se encontra mais em funcionamento (enquanto isso a Titia prefere ir passear de skate, e se destabacar toda no chão, pra poder virar notícia; e o Impoluto vai a Miami fotografar com os fãs); o estado de calamidade das secas do Nordeste, o desmatamento e a insegurança generalizada da região da Amazônia, o estado de extrema miséria de grande parcela das populações de São Paulo e Rio de Janeiro, nada disso chama a atenção dos administradores desse país. Precisa-se olhar para fora.

Na educação, escolas sucateadas, que nunca acompanharão o ritmo das mudanças tecnológicas mundiais; cadeiras quebradas (pelos próprios alunos); paredes pichadas (também por eles, retratos da falta de educação recebida e das leis frouxas e descabidas); mas o prefeito de Fortaleza, nosso venerável Pinguim, presenteia o alunado com mochilas de rodinhas, e todo o material escolar, para serem usados em escolas sem água, sem bebedouros, sem banheiros, sem cozinha e consequentemente sem merenda escolar e, algumas, sem professores.

Na saúde, prédios e mais prédios construídos e nomeados de hospitais, PSF, UPA, CEO e o cascalho a quatro, desaparelhados, sem profissionais para o atendimento ao público, carente e necessitado.

Nos transportes públicos, mesmo os de iniciativa privada, o caos. Reativar as linhas férreas, o transporte ferroviário, nem pensar. Porque essa olhada para fora beneficiaria o povo (que o povo se lembre disso nas eleições!); seguir os bons exemplos de fora, nesse caso, beneficiaria o povo. Então, não! O governo brasileiro precisa olhar para fora e ir em socorro dos mais pobres e menos favorecidos, lá de fora. E fazer altíssimos investimentos a fundo perdido, lá fora.

O povo brasileiro precisa se olhar, de fora para dentro, ver-se diante do espelho, tomar um choque de consciência, e despertar-se para esse triste fato: olha-se muito para fora. Olha-se demais a casa dos outros. Enquanto “a nossa casa está pegando fogo!”

 

 

* Lucas Carneiro, Poetinha, é escritor, poeta e cordelista. Pós-graduando em Linguística, é professor de Língua Portuguesa e de Língua Espanhola. Nascido em 1964, 15 dias após o golpe atribuído aos militares contra o povo brasileiro, viveu todo o período da ditadura. Inconformado com a situação atual do país, registra seu descontentamento em seus poemas, crônicas, cordéis e artigos, como o ora publicado aqui.

 

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