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NÃO RESPONSABILIDADE E POUCA VERGONHA

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NÃO RESPONSABILIDADE E POUCA VERGONHA

No país da impunidade, da irresponsabilidade e da pouca vergonha, procuram-se culpados, haja vista que todos os “supostos” bandidos são inocentes, até que se prove o contrário.

Publicação em rede social estampa foto de um dos “supostos” terroristas (não há palavra que melhor os classifique), – que (perdoem-me, mas tenho que usar a lexicologia correta, e pôr em dúvida as notícias, sob pena de punição a minha pessoa) teria confessado ser o responsável pelo acendimento do morteiro que caiu sobre o cinegrafista Santiago Andrade, vítima fatal da explosão ocorrida durante manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus, nomeada “pacífica”, e considerada legítima, no Rio de Janeiro, no dia 6 de fevereiro último –, o qual, após ter sua prisão preventiva decretada, foi reconduzido pela polícia ao Rio. Abaixo da foto do “suposto” marginal, duas perguntas.

E a segunda, isenta o “suposto” malfeitor de responsabilidade por seus atos covardes, inocentando-o do crime de homicídio, classificado pelo direito como doloso (quando se assume a intenção de matar) por uso de artefato explosivo e crime de explosão: “Quem acendeu o pavio, o Estado ou a oposição?”

Na metáfora bíblica da criação do mundo, quando Adão teria comido do fruto proibido, induzido por sua companheira Eva, que fora a este ato vil conduzida pela serpente, já teria acontecido essa troca de acusações e esse empurramento das responsabilidades sempre para o outro. Adão acusava a Deus, que lhe dera a mulher por companheira, ao mesmo tempo em que lançava a culpa na própria Eva, a qual, por sua vez, tentava isentar-se de culpa e acusava a serpente, tudo na base do “não é responsabilidade minha!”

Absurdamente, isso tem se tornado um hábito no povo brasileiro. Resultado da falta de uma educação que tenha por base a família; da ausência de uma boa formação sócio-religiosa, moral, ética e cívica; de uma conscientização de que cada indivíduo é – ele próprio – responsável pelos seus atos, e até por sua inação.

O sujeito acendeu o morteiro, apontou-o na direção do cinegrafista, o artefato atingiu a cabeça do cinegrafista, que foi levado ao hospital junto com mais pessoas mais, também feridas na explosão, o cinegrafista morreu… Mas a responsabilidade não é de quem acendeu o morteiro: é do Estado. Ou então é da oposição.

Olhando um pouquinho para fora – até com certa propriedade –, ainda outro dia, durante evento esportivo nos Estados Unidos da América, deu-se acontecimento semelhante: uma dupla explodiu um artefato, ferindo várias pessoas. Alguém, no Brasil, acompanhou o resultado? Não, porque, nesses casos, é proibido olhar para fora. Alguém se arriscaria a seguir tal exemplo? Não, porque, no Brasil, os dois “supostos” marginais, “supostos” assassinos, “supostos” bandidos, são vítimas do Estado, e contratados da oposição para cometerem tais barbáries, em nome de ganhos políticos nas eleições deste ano.

Bandidos atacam, assaltam e queimam ônibus, algumas vezes com vítimas até fatais. Mas eles não são imputáveis porque são, na verdade, vítimas do Estado, ou contratados da oposição. Alunos agridem e matam professores, coordenadores, diretores, colegas de sala, pais, mães, avós e/ou parentes em geral, destroem móveis e outros aparatos escolares, mas, não são responsabilizados, porque, na verdade, são eles as vítimas do Estado [e contratados da oposição?]. Bandidos assaltam e matam nas cidades do interior, mas não são culpáveis porque, na verdade, são vítimas do Estado [e, também, contratados da oposição?]. Traficantes se matam entre si, dizimando e desorganizando famílias inteiras… seriam eles vítimas do Estado [e contratados da oposição]?

Talvez esteja na hora de refazermos nosso trajeto, e descobrirmos onde está o erro. Talvez seja a hora de cada um assumir os próprios erros, e as próprias responsabilidades. Pois, se a administração pública está ruim, fomos nós quem a colocamos lá. E está em nosso poder fazer muito, para modificarmos isso.

* Lucas Carneiro, Poetinha, é escritor, poeta e cordelista. Pós-graduando em Linguística, é professor de Língua Portuguesa e de Língua Espanhola. Nascido em 1964, 15 dias após o golpe atribuído aos militares contra o povo brasileiro, viveu todo o período da ditadura. Inconformado com a situação atual do país, registra seu descontentamento em seus poemas, crônicas, cordéis e artigos, como o ora publicado aqui.

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