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Grupo de ingleses paga 90 libras a mendigo na Espanha para que tatue um nome na testa

Grupo de ingleses paga 90 libras a mendigo na Espanha para que tatue um nome na testa

Turistas participavam de uma despedida de solteiro no balneário de Benidorm. O homem, um polonês de 34 anos, foi roubado e surrado dias depois, enquanto dormia na praia

A história se repete. Primeiro foram os torcedores do PSV Eindhoven atirando moedas para mulheres romenas no centro de Madri. Depois foi a vez do youtuber Kanghoua Ren, que pode ser condenado a dois anos de prisão por dar bolachas com creme dental a um homem em Barcelona.
Agora, um novo caso de aporofobia (ódio aos pobres) causou indignação em Benidorm, um popular balneário na costa mediterrânea da Espanha. Ali, um grupo de turistas ingleses que participava de uma despedida de solteiro usou a um jovem sem-teto polonês como alvo das suas zombarias, pagando-lhe o equivalente a 450 reais para tatuar o nome do noivo na testa.

A história foi denunciada publicamente pela Associação de Comerciantes Britânicos de Benidorm, e o tabloide britânico The Sun a repercutiu. A presidenta dessa entidade, Karen Maling, confirmou nesta terça-feira ao EL PAÍS que iniciou uma coleta de fundos através de seu perfil no Facebook para tentar apagar a tatuagem da testa do indigente Tomek, de 34 anos e origem polonesa.

A Polícia Nacional e a polícia local de Benidorm abriram investigações sobre os fatos, descrito pelo secretário local de Segurança, Lorenzo Martínez, como “revoltantes”.

Apesar de só vir à tona agora pela iniciativa de Maling, tudo ocorreu em maio, quando Tomek se encontrou com um grupo de ingleses que comemoravam uma despedida de solteiro na cidade e convenceram-no a ir a um estúdio especializado e tatuar na testa o nome do noivo com o seu endereço: Jamie Blake, North Shields, N28.

Tomek recebeu em troca 90 libras (443,60 reais, pelo câmbio atual), e a tatuagem não chegou a ser completada devido à “forte dor” causada pelo trabalho do tatuador, que também foi criticado pela presidenta da associação britânica. “Não entendemos como pode ter feito algo assim”, afirma Maling, cujo marido também exerce essa profissão. Para ela, o caso “dá uma péssima imagem” a esses profissionais como um todo.

O próprio Tomek contou à mulher que gastou quase todo o dinheiro em comida e bebida, embora os últimos 17 euros (75 reais) que restavam tenham sido roubados quando ele dormia numa praia da cidade. Os serviços sociais da Prefeitura de Benidorm confirmaram que o rapaz tem problemas de alcoolismo.

Maling já arrecadou quase 200 euros (cerca de 900 reais) para apagar a tatuagem. Calcula que o custo definitivo pode rondar os 300 euros, em função “das sessões necessárias e da dor que lhe cause”. Mas há duas semanas ninguém mais o viu. “Não sabemos onde está”, conta a cidadã britânica, que o procurou sem sucesso pelos lugares onde costumava pernoitar.

Maling entrou em contato com seu compatriota Jamie Blake, cujo nome consta na testa de Tomek. O suposto noivo da despedida afirmou não ter nada a ver com os fatos, pois “foi coisa dos seus amigos”, e ele só ficou sabendo ao ver as imagens nas redes sociais.

A fundação RAIS (Rede de Apoio à Integração Socioprofissional) condenou nesta terça-feira esse possível novo episódio de “trato degradante a uma pessoa em situação de vulnerabilidade e de exclusão social”. Luis Carlos Perea, diretor de Causa dessa organização, afirmou ao EL PAÍS que esse tipo de comportamento é uma “expressão da violência sofrida pelas pessoas que vivem na rua”.

Uma em cada três dessas pessoas já recebeu insultos ou foi alvo de humilhações, e uma em cada cinco sofreu uma agressão física, de acordo com dados fornecidos pelo Observatório Hatento, do qual o RAIS participa. “A cada seis dias um sem-teto morre na Espanha. A rua mata”, aponta o porta-voz da fundação, reivindicando que as autoridades adotem medidas contra a falta de moradia, entre outras iniciativas previstas na estratégia governamental contra a questão dos sem-teto.

Entre essas medidas destaca-se uma regulação expressa no Código Penal espanhol sobre a agravante de aporofobia nos chamados crimes de ódio, algo proposto no Parlamento pela coalizão esquerdista encabeçada pelo Unidos Podemos. “Falamos com todos os grupos políticos e há um consenso sobre a necessidade de reconhecê-lo”, afirma Perea.

A aporofobia, reconhecida como palavra do ano de 2017 no idioma espanhol (grafada aporofobía), foi o termo cunhado pela filósofa espanhola Adela Cortina em 2015 para descrever o ódio à pobreza e à exclusão social. A intelectual assim o explica em sua obra Aporofobia, El Rechazo al Pobre: “Não causam repugnância os orientais capazes de comprar times de futebol ou de trazer o que em algum tempo se chamavam petrodólares, nem os jogadores de futebol de qualquer etnia ou raça que ganham quantidades milionárias, mas são decisivos na hora de vencer competições. Por outro lado, as portas se fecham perante os refugiados políticos, os imigrantes pobres, que não têm nada a perder além dos seus grilhões (…). As portas da consciência se fecham perante os mendigos sem lar, condenados mundialmente à invisibilidade”.(EL PAÍS)