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ÁGUA, A QUEM INTERESSAR POSSA…

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ÁGUA, A QUEM INTERESSAR POSSA…

Anuncia-se, em algumas análises tipicamente catastróficas, que, dentro do breve tempo de aproximadamente 25 anos, o mundo sofrerá escassez – senão falta total – de água potável. Trazendo para um contexto menos alarmista, segundo pesquisas recentes, nos próximos 25 anos, um,  entre cada cinco países, sofrerá com a escassez de água, e estudos da ONU indicam que, já em 2025, a falta de água afetará a vida de pelo menos três bilhões de pessoas. Em vários países da África, da Europa e nos Estados Unidos, isso já é uma realidade.

Não no Brasil, que vai muito bem, obrigado. No centro e sul do país, compartilhado com a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, está localizado um dos maiores aquíferos de todo o mundo. É o Aquífero Guarani, um verdadeiro mar subterrâneo, o maior do mundo em extensão, que comporta 46 mil quilômetros cúbicos de água potável. No entanto, sob uma camada de rocha, sua exploração não é fácil nem barata. Aliás, problema nenhum, num país em que todo orçamento sai majorado, e toda licitação, superfaturada.

Na região Norte, embaixo dos Estados do Amazonas, Pará e Amapá, está localizado o Aquífero Alter do Chão, nome dado em homenagem à cidadezinha paraense homônima que sedia as pesquisas. Esse aquífero foi considerado por cientistas, em 2010, o maior do mundo em volume de água: 86 mil quilômetros cúbicos, quase duas vezes a quantidade de água do Aquífero Guarani, embora em extensão seja muito menor que este. O Alter do Chão tem a sua água naturalmente filtrada, durante as chuvas, pela camada arenosa de terra sob a qual está assentado. Por causa dessa camada de terra, e não de rochas, como acontece com o Guarani, sua exploração é mais rápida e mais barata.

Ainda na região amazônica, nas décadas de 1970 e 1980, quando da perfuração de poços, pela Petrobras, à procura de petróleo, encontrou-se um fluxo subterrâneo de águas, com pelo menos 2% do volume do Rio Amazonas, com uma vazão de três mil metros cúbicos de água por segundo, maior que a vazão do Rio São Francisco (Minas Gerais e região Nordeste) e três vezes maior que a vazão do Rio Tietê (São Paulo), este com sua calha cheia. O Rio Hamza – assim nomeado em homenagem ao pesquisador indiano Valiya Hamza (morando no Brasil desde 1974), da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional, orientador de pesquisa da professora doutora Elizabeth Tavares Pimentel, da Universidade Federal do Amazonas –, está situado a pelo menos quatro mil metros abaixo da superfície, e corre no mesmo sentido que o Rio Amazonas.

E estamos falando aqui apenas de águas subterrâneas, mas existem quantidades imensas de águas de superfície, como a gigantesca bacia amazônica, a maior do mundo; a bacia do São Francisco; os mananciais do Paraná, do Pantanal, do Pernambuco e do Maranhão, entre outras.

Em suma, o Brasil possui hoje a maior reserva de água chamada doce – mas nem sempre potável – do mundo, em relação aos demais países: 20% da água doce do planeta. E não, não terá problemas de falta, ou mesmo de escassez de água. Água, temos muita. Segundo as pesquisas mais recentes, somente a água do Alter do Chão daria para abastecer a necessidade de toda a população mundial por, pelo menos, 100 vezes (inicialmente, se dizia que abasteceria o mundo inteiro por mais 500 anos).

O problema da escassez ou de falta de água potável, no entanto, não reside no esgotamento das reservas. Pesquisadores afirmam que, desde alguns milhares de anos, a quantidade de água no planeta segue exatamente a mesma, mudando apenas de estados.

O povo brasileiro tem nas mãos um problema muito maior que a potencial mas pouco provável escassez – ou falta – d’água. O problema da falta de educação!

O problema da escassez de água está mesmo é no mau uso que se faz dela; poluição, sujeira, desperdício. Algumas das bacias e/ou reservatórios, infelizmente, já não se podem enumerar como reservatórios de água aproveitável, como é o caso do Rio Capibaribe, que corta o Recife (Pernambuco). No Ceará, também, os rios Cocó e Maranguapinho (ou Rio Siqueira), que atravessam toda a cidade, de tão poluídos, já não se podem aproveitar suas águas para consumo humano nem animal. As famílias Queirós e Jereissati (na pessoa do senhor Tasso Jereissati, político conhecido no cenário nacional), contrariando descaradamente a lei, construíram, às margens do Rio Cocó, o Shopping Iguatemi. O Rio Ceará, que desemboca na famosa praia da Barra do Ceará, em Fortaleza, tampouco serve para consumo humano. As margens do Rio Siqueira servem de despejo de lixo pela população, tornando-se verdadeiras rampas de lixo. O desperdício indiscriminado da água em lavagens de calçadas, motos e automóveis, e até da rua inteira, chega a ser quase “criminoso”, por tirar de outrem o direito ao usufruto de um bem que não é particular. Os reservatórios de água construídos pelo homem para captação de água da chuva – açudes, represas, barreiros, quando o governo não cede para uso de empreiteiras e mineradoras, os populares, que deveriam ser os mais interessados e preservar, lavam automóveis e cavalos, e levam seus animais a dar de beber – os quais fazem ali suas necessidades fisiológicas –, criam porcos à solta – que fazem barreiros de lama –, tudo isso dentro da água que deveria ser de uso público e de todos.

Outro problema sério é o das rampas, ou lixões, que precisam ser preparados para o depósito dos dejetos produzidos pela humanidade. Se não acontecer essa preparação, o “chorume” produzido no fundo dos lixões, altamente tóxico, penetra a terra, e por ser líquido, vai se depositar nos lençóis freáticos, tornando a água imprópria para uso.

Muito importante considerar que o produto água, em muito breve tempo, se tornará um bem tão precioso quanto o petróleo, ou outro bem valioso qualquer. Os mais alarmistas cogitam conflitos e até guerras internacionais pela posse e usufruto da água, e isso para breve.

Uma verdade é que, no Brasil, tudo se vende para empresas e países estrangeiros, para a exploração por estrangeiros e para seu lucro e dos interessados mais diretos. Vendido por preço de matéria-prima, mas comprado de volta a preço de industrializado, como é o caso da Hidrelétrica de Itaipu e do petróleo brasileiro. No município de Quiterianópolis, no interior do Ceará, a administração municipal (não me perguntem como) negociou com uma empresa chinesa a exploração de uma mina de ferro, e a empresa encontrou pedras semipreciosas. E esse bem, que é do povo, vem sendo explorado e vendido em silêncio, beneficiando sabe-se bem quem.

O que me intriga, porém, é o porquê de o povo brasileiro não receber a informação dos reservatórios aquíferos aqui existentes. E creio que também intrigará a muitos outros, pelo menos daqui para a frente. Terá nossa água, como o nosso petróleo, e ouro, e pedras, o mesmo fim? Será que o governo tenta preservar os aquíferos da sebosidade e imundícia do povo que ele próprio se nega a educar? Ou será que os preserva para fins negociais com algum outro interessado? A quem interessa que se esconda do povo mais essa preciosa informação?

* Lucas Carneiro, Poetinha, é escritor, poeta e cordelista. Pós-graduando em Linguística, é professor de Língua Portuguesa e de Língua Espanhola. Nascido em 1964, 15 dias após o golpe atribuído aos militares contra o povo brasileiro, viveu todo o período da ditadura. Inconformado com a situação atual do país, registra seu descontentamento em seus poemas, crônicas, cordéis e artigos, como o ora publicado aqui.

 

1 comentário

  1. Avatar
    01 fevereiro, 2015

    Caro Sergio,
    Estou totalmente de acordo com você e venho falando aos meus amigos sobre os “nossos” aquíferos.
    Você tem que republicar este texto.
    Atenciosamente,
    Regina

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